Páginas

domingo, 23 de setembro de 2012

Florença: Dia 1. Rio Arno, Ponte Vecchio e Duomo (por fora).

Rio Arno em Florença
A viagem de trem foi supertranquila. Os assentos são bem mais confortáveis do que os de um avião e há balcões em certos vagões onde você pode comprar sanduíches e bebidas para improvisar um almoço. Foi o que fizemos, para não chegar a nosso destino, às 12h40, roxos de fome. De Veneza saem a toda hora trens para toda parte, principalmente o que vai até Roma, passando por Mestre, Pádua, Bolonha e Florença. É aqui que a gente desce!
Logo de cara, saindo da estação, a primeira impressão já é boa. Uma cidade organizada, arborizada, com ruas largas. Até minha mãe, que não curte velharia, gostaria daqui. Em frente à estação já tem atração turística: a igreja e museu Santa Maria Novella, toda medieval e gótica. Ela tem um jardim particular. Mas não fomos vê-la; estávamos mais preocupados em chegar ao hotel com as mochilas pesadíssimas e o calorão inesperado deste dia no lombo (estava frio e nublado quando deixamos Veneza!). Chegamos, mas o check-in era só às 14 horas, então deixamos o grosso da bagagem em um cantinho e saímos para pernar um pouco. Afinal, a poucos passos daqui fica o rio Arno, e o David AMA rios!

Santa Maria Novella.
O Rio Arno! Na foto, parece um espelho, mas...
Confesso que este rio foi um pouco decepcionante. É um rio paradão, praticamente um lago, com algumas barragens, muita vegetação flutuante e, infelizmente, algum lixo também. Só não é fedido! Os brasileiros não são os únicos que não cuidam de seus rios como deveriam... mas mesmo assim não dá para comparar o Arno ao Tietê. O lixo existe, mas não é tanto, e no entorno, antes das vias expressas para carros, temos calçadas e pontes com passagens para os pedestres e ciclovias.

As pontes são uma atração à parte: hoje mesmo passamos pela Ponte de la Trinitá e pela famosa Ponte Vecchio vecchio mesmo – ponte aqui é substantivo masculino). Essa ponte tem lojas antiquíssimas por cima – antigamente, eram curtumes e oficinas de ferreiros, que foram substituídos por joalherias e oficinas de ourives ainda no século XV e hoje abrigam lojas igualmente requintadas. O mais legal é que os espaços são os mesmos daquela época, a julgar pelas estruturas de ferro e madeira. E deve ser mesmo, porque a Ponte Vecchio foi a única ponte a não ser derrubada pelos alemães ao se retirarem de Florença, quando viram que estavam perdendo a Segunda Guerra. Dá só uma olhada nas fotos...

Ponte Vecchio.
Passagem dos Médici por cima da ponte Vecchio, conhecida como Corredor Vasariano.
Loja antigona fechada na Ponte Vecchio.

Por cima da Ponte Vecchio há uma passagem fechada, o Corredor Vasariano, que a família Médici mandou construir para poder transitar entre seus palacetes, dos dois lados do rio, sem ter que se misturar à gentalha. Hoje, o povão todo pode comprar o ingresso para ver esses palácios: o Ufizi e o Pitti, galerias de arte que expõem, entre outras coisas, peças colecionadas pelos Médici. E de quebra parece que dá para cruzar a ponte. É lá que a gentalha aqui vai farofar amanhã, huahahah! Brincadeira. Sem farofa. A gente só come torrada e banana.

Voltamos ao hotel para descansar um pouco da mochilada. O Hotel Argentina Curtatone é um edifício clássico e nosso quarto é lindo. Não esperávamos nada assim: ele é azul (minha cor preferida evah), dourado e branco, com mobília de época. Mó climão! Chego a lamentar não ter um vestido gigante e uma peruca de meio metro de altura para combinar. O David pegou no sono e eu vou tomar um banho para espantar o calor. Cadê o frio desta Europa, hein? Viemos carregados de roupas quentes e já é outono, mas o verão ainda não se tocou de dar a área. Bom, acho que vamos poder sentir bastante frio – e reclamar dele também, claro – na Suíça, na semana que vem.

Saímos de novo. Fomos andando até o Duomo para conferir que sua fama é merecida: o bagulho é enorme e lindo e domina a paisagem. Mas só pudemos vê-lo por fora, pois já tinha fechado. Percorremos então diversas ruas desta cidade que ainda conserva muitas de suas edificações do Renascimento. As ruazinhas são pitorescas – ainda que menos do que as de Veneza e de um jeito obviamente diferente. Há muitas lojas de lembranças finas (e mequetrefes também), roupas, artigos de couro, joias e antiguidades. Muitos espaços abertos com estátuas e sem canteiros, mas, separadamente, belas praças e grandes jardins como o que fica em volta da Fortaleza da Basso, que tem até um lago.

Santa Maria dei Fiori... popularmente chamada de Duomo!

Detalhes mil que você encontra na entrada da catedral.

Batistério que fica em frente ao Duomo.

E o tal Duomo!!!
Criador do Duomo: Brunelleschi.
Enfim, camelamos um bocado, comemos besteira na rua, voltamos ao hotel, tomamos banho e desmaiamos. No dia seguinte, iríamos cedo ao Duomo!

Sobre o Hotel Argentina Curtatone: nos dias seguintes, veríamos que o quarto lindão tinha lá seus podres. A começar pelas janelas – tão antigas e capengas que não se fecham direito. Neste calorão, os mosquitos estão fazendo a louca. É preciso deixar todas as camadas da janela – venezianas, vidro e chapas de madeira internas – tão fechadas quanto possível durante o dia para não ter sinfonia de pernilongo à noite. Uns trancos parecem ter resolvido. Torcemos. Felizmente, tem ar condicionado – ponto para o hotel.

Hotel Argentina Curtatone.
Quando vimos fotos dos quartos na Internet, tinha banheira. E tem. Oba! Só que ela não tem o tampão para o ralo, e nós o cobramos do pessoal da recepção, mas disseram-nos que não havia tampão. Ou seja, tem banheira, mas só dá para usar o chuveiro.

O café da manhã é bom. Falta, como sempre, alguma fruta, mas tem iogurtes ótimos, leite, achocolatado, café, queijo tipo polenghi, suco e outras coisinhas.

Ah, também escolhemos este lugar por ter wi-fi, mas a conexão não chega ao segundo andar – o nosso – então, nada de Internet no quarto. Tem que descer até o lobby do primeiro andar para usar.

Em resumo, o hotel Argentina Curtatone é legal e bonito, mas tem seus poréns. Só rola se você não estiver querendo mordomia. A gente não liga muito, mas queria web no quarto e banheira para relaxar no fim do dia, né?

Casario antigo às margens do Arno.

sábado, 22 de setembro de 2012

Veneza: Dia 4. Cannaregio e Castello.

Gondoleiros jogando conversa fora no Cannaregio.

No sábado, tivemos nosso último dia inteiro em Veneza: o mais quente de todos desde que chegamos, com sol de manhã até a noite, céu azul límpido – não tem aquele marronzinho de poluição no horizonte – e tão quente que a europeiada foi à rua de short e vestido curto. Para nós, acostumados aos trópicos, calça comprida e camiseta estavam de boa, com jaqueta leve na sombra.

Loja de massas artesanais de todo tipo e toda cor! Na agitada Calle Lista di Spagna.

Decidimos atravessar a Ponte degli Scalzi e andar pelos únicos bairros que ainda não tínhamos visto, dentre os que podem ser alcançados a pé: Cannaregio e Castello. Bairros mais residenciais, assim como o Dorsoduro. Nós sabíamos que um turista normal teria corrido para a Accademia, mas a verdade é que ainda estávamos saturados de museu de arte e queríamos mesmo era ficar ao ar livre.

É no Cannaregio que ficam o Ghetto Vecchio, o Ghetto Nuovo e o Ghetto Nuovissimo (rs!). A palavra "gueto" veio daqui mesmo, de Veneza, designando a área onde, há alguns séculos, os judeus eram confinados para morar separados dos cristãos. Ainda hoje, esta é a vizinhança judaica da cidade. Tem uma sinagoga antigona ainda em funcionamento, lojas de artigos da cultura judaica, um museu hebraico e um restaurante kosher. Mas era sábado, nada aquilo abria (exceto a sinagoga, mas só para a comunidade) e ficamos só na querência de um falafel. :-P

Ruas do gueto.

Placa homenageando judeus venezianos que morreram na Segunda Guerra Mundial.

Os pitorescos varaizinhos que atravessam de um prédio a outro, ignorando canais.

Almoçamos em um restaurante veneziano comum mesmo. Restaurantes italianos normalmente oferecem antipasti (entradas), primi piatti (primeiros pratos), secondi piatti (segundos pratos) e dolci (sobremesas). Nós comemos legumes grelhados, batatas cozidas e queijos com mel. Muito bom! Mas os garçons parecem sempre estranhar o fato de que só pedimos entradas...

Nham.

Decidimos caminhar sem rumo, passando por mais igrejas, pontes e casas medievais e renascentistas do que podemos enumerar. Chegamos ao Ospedale Civile, o hospital de Veneza, que fica colado à Scuola di San Marco e à igreja Santi Giovani e Páolo - gigantesca. Ao lado do hospital, no Rio dei Mendicanti, ficam estacionados barcos-ambulâncias. A gente tentou imaginar a trabalheira que deve ser tirar desses barcos as pessoas que vêm em macas ou cadeiras de rodas... Esses lugares não aparecem em nossas fotos, só nos vídeos. Aguentem aí que em breve eles serão editados e publicados!

Parco Groggia, extremamente sossegado, no Cannaregio.

No Castello, passamos por quarteirões de prédios residenciais onde as crianças podem brincar despreocupadamente na rua – ou melhor, nos pátios públicos –, já que nesta cidade não há risco de atropelamento (já de afogamento...). Fomos até o Arsenale, onde, nos tempos da República Veneziana, construíam-se os poderosos navios de comércio e guerra da cidade, além, é claro, das armas. A enorme muralha tem uma passarela onde velhinhos ensinam seus netos a pescarem e tudo o que nos separa de um tombo no mar profundo é um piso de placa de metal. Andamos até sair do mapa. Então, voltamos. Sabíamos que havia algo além (e o Google Maps confirma!), mas tivemos um pouco de medo de nos perdermos. Veneza sem mapa é roubada. :-P

David e a igreja de Sant'Alvise, no Cannaregio.

Como o Castello já é colado em San Marco, passamos por lá para nos despedirmos da piazza e curtir a vista de cima da Ponte della Paglia, que tem vista direta tanto para o mar como para a Ponte dei Sospiri, por dentro da qual passamos no dia da visita ao Palazzo Ducale. Para quem não sabe, a Ponte dei Sospiri (Ponte dos Suspiros), que liga o palazzo à Prigioni Nove, a prisão de Veneza, leva esse nome porque, de suas janelas com barras de ferro, os prisioneiros condenados tinham sua última vista da cidade. Bom motivo para suspirar, não? Passar por dentro dela e ver algumas das celas minúsculas usadas antigamente é muito interessante, senão opressor.

A Ponte dei Sospiri.
O entardecer en San Marco.

No final da tarde, estávamos tão cansados que, em lugar de jantar, fomos direto para o hotel recuperar as energias e só mais tarde saímos para comer. Mais uma dica para você que está acostumado a cidades que não dormem, feito São Paulo: não deixe para jantar depois das 10 da noite. Os venezianos dormem cedo, pelo menos longe do centrão. Deve haver vida noturna mais tardia por aqui em algum lugar, mas com certeza não há no Santa Croce. Nós saímos às 22h30 e todos os restaurantes já estavam fechando. Tivemos que atravessar o Canal Grande para achar um take away e comprar uns sanduíches e refrescos.
No dia seguinte: Mila no trem para Florença!

Despedimo-nos de Veneza sem um jantar em grande estilo. Mas saturados de imagens, informações e ideias capazes de mexer com a cabeça de qualquer escritor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Veneza: Dia 3. Piazza San Marco e Dorsoduro.

Ó a famosona aí.


Sexta-feira. Acordamos cedo e fomos direto para San Marco, para tentar entrar na basílica sem enfrentar filas escatológicas. O caminho de nosso bairrinho, o Santa Croce, até lá é muito rápido. Se for direto, você nem sente que andou.

A Basílica di San Marco colada ao Palazzo Ducale.

Conforme o dia ou a época do ano, a San Marco pode abrir às 9h30, às 9h45 ou às 10 – as placas informativas não entram em consenso, sabe. Na dúvida, vá às 10. A entrada na basílica é gratuita. Mas paga-se por todo o resto: 5 euros para a Loggia dei Cavalli – sacada com as quatro estátuas de cavalos roubadas de Constantinopla, de onde pode-se ter uma vista panorâmica; 3 euros pela Pala d’Oro, uma peça de altar enorme; e mais 3 euros pelo Tesouro de San Marco. Coisas que merecem ser vistas, a gente sabe. Mas estávamos nos sentindo meio mãos de vaca depois do ingresso caro do dia anterior! Então, decidimos não entrar nessas áreas. Ainda assim, ver só a parte gratuita da San Marco vale a visita. Para quem curte coisas da Idade Média, tem uns mosaicos incríveis.

Interior da Basilica di San Marco.

Mais da basílica.

Tínhamos passado a noite anterior tentando descobrir em nosso guia – sem sucesso – onde ficava o Museu Arqueológico. Descobrimos na mesma hora que ele é anexo ao Museu Correr, ali mesmo, na Piazza San Marco. Então, vimos os dois de uma só vez. Eles oferecem belas coleções de obras de arte relacionadas à história de Veneza e ainda artefatos da Antiguidade Clássica vindos de coleções particulares. As salas do próprio edifício também são muito bonitas, com tetos e paredes ornamentados. Se você já viu os Museus do Vaticano ou o Louvre, não vai se impressionar muito, não. Mas são ótimos museus, sem dúvida.

As belas arcadas da Piazzeta, a pracinha que sai da praçona e dá de cara no mar.

Nesse dia, decidimos almoçar "direito" e usar o momento para descansar. Eu – Mila – estou aventando seriamente a possibilidade de passar a usar sapatos ortopédicos, porque meus pés e pernas estavam pedindo arrego desde ontem. Até os joelhos estão em greve. Nós dois temos o hábito de andar muito – o David, mais ainda –, mas parece que ou eu peguei pesado ou meus tênis são umas coisas sacanas que parecem confortáveis na hora em que os calço, mas, algumas horas de caminhada depois, já viraram instrumentos de tortura. Ao meio-dia eu não aguentava dar nem mais um passo. Acabamos entrando em um lugar mais caro do que os que costumamos escolher, o restaurante Grand Canal, só porque era perto dali. Pelo menos, o preço que pagamos valeu uma refeição muito boa com vista para o mar.

Vista do restaurante Grand Canal, com a infalível pomba à espreita.

Saímos de lá com destino ao Dorsoduro. O nome significa exatamente o que parece. Este bairro foi construído sobre uma ilha mais sólida, resultando em uma Veneza mais espaçosa, menos recortada por canais e mais... autêntica. Ao menos, é a sensação que passa. É lógico que toda a cidade é "autêntica" – nada nela foi construído para os turistas. No entanto, é o turismo que causa aquela impressão de que toda a cidade foi posta à venda na forma de máscaras de carnaval de todos os tamanhos, cores, tipos e preços, vidros de Murano e outros clichês que infestam as áreas mais próximas a San Marco. No Dorsoduro, assim como no Cannaregio e no Castello, é onde parecem viver os venezianos de verdade: gente que acorda todo dia e vai para o trabalho, que estuda na faculdade, que leva os filhos à escola, que estaciona seus barquinhos motorizados, e não gôndolas, no cais. Gente que não necessariamente vive do turismo. Claro que o bairro é turístico – é nele que fica a famosa Accademia –, mas é bem menos baladado que Rialto e San Marco com suas multidões. É aqui que você pode caminhar sossegadamente e ver crianças usando patinetes, turmas de estudantes tagarelando em bares e pessoas comuns voltando do trabalho no fim da tarde.

No caminho, fomos fotografando tudo, é claro. Esta é a igreja de San Moisè, que fica bem próxima a San Marco.

Adivinha: mais canais!

Eu, Mila, tenho como missão pessoal fotografar todos os gatos com os quais a gente topar em viagens. Ou obrigar o David a filmá-los. Esse bonitão estava no trecho entre Rialto e San Marco.

As igrejas do Dorsoduro são numerosas, mas menos esplêndidas que as do outro lado do canal, e os casarões impressionam menos. Mas, devido ao “dorso duro” desta ilha, as praças e espaços abertos são mais frequentes e algumas casas até têm pátios e jardins. Para quem curte adquirir peças exclusivas, perto da Accademia há muitas lojas de arte e design. Para nós, a visita valeu principalmente porque sempre tentamos conhecer a “verdadeira cidade” por trás das atrações turísticas. Andar pelos bairros onde as pessoas realmente moram faz com que nos sintamos parte da cidade. Como se fôssemos alienígenas disfarçados tentando conhecer de perto o estilo de vida dos seres humanos. XD

Para passar ao Dorsoduro atravessa-se a Ponte della Accademia, que é bem alta. Por baixo dela, o movimento de barcos é intenso. Por cima, temos belas vistas como esta:

A foto aqui também é concorrida, mas não como na Ponte di Rialto...

Aliás, não entramos na Accademia. Sabemos que merece – e muito – uma visita, mas já tínhamos nos saturado de obras de arte nesse dia. Então, tudo o que fizemos foi andar ao ar livre: nosso programa preferido em qualquer cidade, sempre.

O sossego do Dorsoduro.

Eu disse que as igrejas são menos impressionantes aqui. Mas isso não é tão verdadeiro para a Santa Maria della Salute. Esta baita igrejona, de cara para a água, é bem visível lá do outro lado do Canal Grande e deu tchauzinho em várias de nossas fotos. Sua ampla escadaria atrai caminhantes cansados, que a usam como uma arquibancada para admirar o canal. Mas tome cuidado: golpistas à frente! Os caras ficam diante das duas portas da igreja, arrumadinhos, segurando um cesto e pedindo donativos. Sem pensar, você acha que é para a manutenção da casa e doa. Mas logo na porta, com o rabo dos olhos, pode-se ver um cartaz em inglês e em italiano avisando que ninguém tem permissão para pedir doações para a igreja do lado de fora. Felizmente, nós o vimos a tempo de não dar uns euros para o cabra safado.

Fachada monumental da Santa Maria della Salute.

A Santa Maria e sua escadaria.

Aliás, olho vivo, gente. O que tem de golpista e vendedor de tranqueiras de que você não precisa nas cidades italianas não é brincadeira. Em qualquer grande cidade turística, na verdade. Normalmente, são imigrantes. Em Roma, dois anos antes, tinha uns que faziam de tudo para você comprar uma rosa, apostando na ideia de que o cara vai ficar sem graça de negar uma flor à namorada. Em Sevilha, umas tias pseudociganas que te entregavam um raminho de mato, te desejavam sorte e pediam grana – além dos sujeitos vendendo abanicos (leques) mequetrefes. Em Milão, uns dias depois de Veneza, veríamos uns que praticamente amarram uma pulseira no seu braço para ver se você a compra. As táticas são as mesmas. Eles chegam sorrindo, puxam papo, apertam sua mão, perguntam de onde você é e tentam mostrar que arranham algumas palavras do seu idioma. Então, te "dão" alguma coisa e dizem que é de graça, mas te pedem "uma ajuda". Afinal, eles sabem que é mais difícil dizer não a alguém que age como amigo. Se você não quiser perder tempo e dinheiro, não pare perto deles, não faça contato visual, não dê atenção. Não tente nem mesmo ser gentil e explicar que não rola, pois eles tomam isso como uma brecha para se aproximarem. Eles insistem. Mantenha uma expressão neutra e diga NÃO. Afinal, o euro hoje fechou a R$ 2,63.

(Mas o golpe mais criativo que já vimos foi em Paris. A gente ainda vai contar essa história. 'Guentaí.)

Quando chegamos ao Santa Croce, já tinha escurecido. Abastecemos nossa mochila com bananas e água para o dia seguinte, mas, antes disso, fomos até a estação Santa Lucia para comprar nossas passagens para Florença. Partiremos no domingo! Amanhã, portanto, é nosso último dia no Vêneto. Então, vamos pegar leve na pernada e namorar bastante a paisagem, para gravar Veneza não só neste blog e em nossas fotos e vídeos, mas principalmente em nossas retinas. Nem partimos e já estamos com saudade...

Não dava para ficar sem uma foto cheia de gôndolas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Veneza: Dias 1 e 2. Chegada, Mercato de Pesce, Rialto e Piazza San Marco.


Vista da Ponte di Rialto.

19.09.2012, quarta-feira. Ok, vamos começar com um clichê: nem acredito que estamos aqui! Em Veneza!

Chegamos no final da tarde, pois nosso voo em Amsterdã demorou para decolar e,quando pousamos no aeroporto Marco Polo, na cidade Mestre (vizinha de Veneza no continente), já passava das 17h30. Pela previsão do tempo, enfrentaríamos muita chuva e teríamos que tomar um ônibus e ainda um trem até conseguir chegar ao hotel com nossas mochilas. Mas o Weather Channel errou e o transporte público melhorou: a tarde estava apenas nublada e tinha um ônibus que nos levou diretamente do aeroporto até Veneza. Vai para Veneza? Anotaí: no aeroporto Marco Polo, vá até o guichê da empresa ATVO e compre uma passagem de ônibus. Custa 6 euros. No ponto de ônibus número 1, bem na saída do aeroporto, você deve validar sua passagem numa maquininha amarela que fica bem à vista. O busão sai de meia em meia hora, é confortável e te leva até bem perto da estação de trem Santa Lucia e da Piazzale Roma. Também dá para ir do aeroporto a Veneza de barco, mas é mais caro. Se não quiser gastar muito, prefira o ônibus.


O Canal Grande!

Como achávamos que teríamos que tomar um trem, nossa reserva era em um hotel bem perto da estação. Então, não tivemos que andar muito para chegar. Nosso hotel, o Albergo Doge, fica na Calle Lista Vecchia dei Bari, é pequeno, simples, antigo – a decoração deve ser a mesma desde os anos 1960, mas o prédio deve ser bem mais velho –, barato e com tudo funcionando, que é o mais importante. Lembrando que “barato” em Veneza é muito relativo, pois a hospedagem na cidade é cara. Até por isso muita gente se hospeda em Mestre, que é bem mais em conta. Mas aí é preciso tomar ônibus ou barco para ir e voltar todo dia – e fica-se sem o gostinho de dormir e acordar respirando história e maresia. Boa sorte para quem tiver coragem de perguntar o valor da diária dos hotéis históricos de cara para o Canal Grande. :-P

O Albergo Doge tem café da manhã, que a gente toma no quarto mesmo – e tá ótimo, pois eles o trazem até você. A gente pediu chocolate com leite em lugar de café ou cappuccino. O resto é croissant, torrada, pão, biscoito, mel e geleias meladas. Faltou uma fruta, mas, como o desjejum estava incluído no preço, a gente nem chiou, não.

Agora, voltando: NEM ACREDITAMOS! ESTAMOS EM VENEZA! Bora ver canal, escadaria, ponte e igreja  até dizer chega!

Outra vista do canal.

Na primeira noite, não deu tempo de curtir muito, pois chegamos esgotados das muitas horas de viagem (3 horas de antecedência no aeroporto de Guarulhos + 11h30 de São Paulo a Amsterdã + intervalo de 3 horas + voo de 1h40 de Amsterdã a Veneza + atraso de 1 hora + meia hora de ônibus). Mesmo assim, saímos um pouco. Não se preocupe se achar que está longe de San Marco e do agito. Veneza é minúscula e, para QUALQUER lugar que você ande, encontrará os tais canais, com pontes pitorescas debruçadas por cima para você subir e fotografar alguma vista com vago ar medieval e depois jantar em algum restaurante à beira-mar. Então, mesmo em nosso bairro pouco concorrido e considerado não turístico, a gente ainda se divertiu caminhando algumas horas antes de assumir a canseira, tomar banho e desmaiar. Fizemos um rápido reconhecimento da cidade, chegando a entrar na Universidade de Veneza, um edifício bastante antigo cujo pátio tem um poço no meio – hoje, desativado e coberto de roseiras e intervenções artísticas. Tudo bem que depois a gente comeu a pizza marguerita mais mixuruca de todos os tempos (mussarela, polpa de tomate e manjericão ausente). Mas não tinha problema... afinal, ESTAMOS EM VENEZA! Quem liga pra comida?


Um dos incontáveis canais de água salgada.

20.09.2012, quinta-feira. Céu azul, sol forte. Saímos cedo com destino à Piazza San Marco. Claro que o plano era ir bem devagar, fazendo todos os desvios que tivéssemos vontade, fotografando desde igreja até maçaneta de porta. E nós o cumprimos à risca.

Dica: não saia sem um mapa. Não. Mesmo. Percorrer as vielas venezianas sem saber para onde está indo pode ser muito frustrante. Claro que todas elas valem a visita, se você gosta de observar o casario caindo aos pedaços e tentar imaginar as histórias que ali aconteceram (como nós fazemos). Mas até quem curte pode enjoar disso. Então, foi fundamental ter um bom guia à mão. Se você não tiver um mapa, compre um por 2 ou 3 euros na primeira banca de informações ou de jornal que encontrar - tem várias perto da estação de trem. É claro que você pode apenas seguir as placas que apontam para Rialto, San Marco e Accademia, mas a sinalização nem sempre é clara e a cidade tem muito mais do que pontos turísticos óbvios a oferecer. Pontes em arco, com balaustradas onde você pode se debruçar para observar os corredores de água ladeados por casas centenárias. Imensas portas de madeira que se abrem das casas para a água. Degraus cobertos de limo e algas que descem para os canais. Gôndolas levando turistas, vaporettos, lanchas e iates levando habitantes. Janelas de madeira com jardineiras repletas de flores. Igrejas medievais e renascentistas em pátios onde sobrados e lojas se colam a elas, indissociáveis. Edifícios de vários andares, antigos e tortos, que de tão inclinados quase se beijam lá no alto, enquanto abaixo as ruas estreitas, intrigantes, serpenteiam. Veneza é um labirinto no qual vale a pena se perder sem pressa de se encontrar.

Muitas, MUITAS pontes fotografáveis.

Mila perturbando a paisagem.

Igreja de San Giacomo dell'Orio.

Aliás, falando em torto, o que tem de prédio torto nesta cidade não é brincadeira! A gente nunca visitou Pisa, mas foi como se estivesse lá. Ficamos nos perguntando se os arquitetos italianos gostavam de ir na diagonal ou se o terreno é que não ajudou. Concordamos com a segunda hipótese... Veneza é um desafio arquitetônico: foi construída, toda ela, sobre a lama e as águas do litoral. E um dia a mesma água e a mesma lama hão de engoli-la. Se você quer conhecer a joia do Vêneto, é melhor vir logo! Isto aqui vai cair!

Em Veneza há um estilo gótico particular que não se parece muito com o gótico alemão ou francês, aquele da Catedral de Notre-Dame e suas amigas. É um gótico com um ar mais alegre e exótico, com um pé ou dois na mesquita. Lembra um pouco a arquitetura mestiça que vimos em Sevilha. Veja as fotos e diga se essas janelinhas enfeitadas não têm um tempero árabe...

Fachada típica de palacete veneziano.

Mais do que canais, Veneza tem estilo próprio.
Isto é um sottoportego - uma passagem por baixo de prédios para ligar as ruas umas às outras. São tão numerosas quanto as pontes.

Bom. Fomos caminhando pela cidade com a sensação de fazer parte de uma espécie de lenda. Paramos para almoçar em um restaurante chinês – quem precisa de comida típica, né?Comemos uma boa porção de cogumelos com broto de bambu e outra de legumes cozidos, a 4 euros cada, e demos no pé. Tem esta também: não comemos carne, não gostamos de gastar muito com comida, nem de demorar demais nos restaurantes. Com tanta coisa para ver, se não fosse uma necessidade vital, a gente nem pararia para abastecer o bucho. Mas não dá para ser, então, normalmente a gente passa à base de lanches rápidos e frutas – um cacho de bananas e duas garrafas de água dentro da mochila são essenciais.

Charme veneziano: tudo apertadinho.
Igreja de San Stae, de cara para o Canal Grande.

Canais, fachadas, barcos, Veneza!

Passamos pelo Mercato de Pesce e pela famosa Ponte di Rialto - e, nesse ponto, a Veneza vazia de algumas horas atrás virou formigueiro em polvorosa. Centenas de turistas tirando fotos, fazendo compras, tagarelando em línguas inidentificáveis. Conseguir uma foto no topo da Ponte di Rialto é uma verdadeira façanha. Além de a ponte em si ser disputadíssima, dos dois lados dela e também EM CIMA dela há lojas de lembrancinhas típicas: camisetas, objetos de vidro, semijoias, máscaras de carnaval veneziano etc. Para evitar a muvuca, tentamos escolher os caminhos menos concorridos para San Marco. Dica: se vai comprar suvenires para a parentada em Veneza, não compre no primeiro dia, nem leve os primeiros ímãs de geladeira que vir – você pode se empolgar e pagar mais do que eles valem ou mesmo perceber que escolheu os piorezinhos... Aliás, isso vale para qualquer cidade onde você vá ficar mais de um dia. Tem centenas de lojas de coisas de vidro e máscaras de carnaval cheias de glitter por toda a cidade. Mas a maioria parece coisa da 25 de Março. As realmente bonitas são mais caras. Se vai comprar, escolha com cuidado, leve os itens mais especiais e só faça isso depois de ter visto o que realmente interessa. ;-)

Imensa variedade de cogumelos no Mercato de Pesce. Não, ele não vende só peixe...

Igreja de San Giacomo di Rialto. Não sabíamos que se podia escrever o número 4 em algarismos romanos como IIII, mas, pelo jeito, pode! Ou podia em 1410, quando esse relógio foi construído.
Ei-la: a Ponte di Rialto!
Vista do alto da ponte.
Os azuis são mirtilos, os vermelhos a gente não sabe.
Chegando a San Marco... eis que a muvuca nos esperava novamente! Mas o lugar é tudo o que dizem – e muito mais. Uma praça simplesmente fabulosa, com a igreja propriamente dita dominando a paisagem feito um colosso de mármore multicolorido, mosaicos e estátuas; a Torre del’Orologio, com seu imenso relógio renascentista à vista; o campanário de tilojos vermelhos; o exótico Palazzo Ducale, tipicamente veneziano; as arcadas da Piazzeta, que abrigam lojas e restaurantes chiques; e, é claro, a vista para o Adriático, lotado de iates, lanchas e gôndolas. Ali a vista se espraia, oferecendo, além do azul do mar, a ilha ocupada pela igreja de San Giorgio e seu jardim e o outro lado do Canal Grande, onde a igreja de Santa Maria della Salute se exibe soberana. Mas melhor do que a gente explicar é você conferir nas fotos, nesta postagem e também na próxima.

A imponente Catedral de San Marco.
O Palazzo Ducale!
Como a fila para entrar na catedral estava muito longa, decidimos ir para o Palazzo Ducale, que hoje é um museu – e não tinha fila. O ingresso para este palazzo onde antes viviam os doges custa 16 euros por pessoa, mas dá direito a ver quatro museus dentro de um período de três meses. Voltaremos para conferir os outros três amanhã mesmo! O palazzo é lindo por dentro e por fora, com uma sala mais ornamentada, dourada e imensa do que a outra. Não pudemos fotografar lá dentro. Mas vale a visita. ;-)

Até amanhã.